terça-feira, 23 de novembro de 2010

Filosofia do Pernilongo

Essa noite havia um pernilongo no meu quarto. Ele fazia um barulhão irritante e já tinha me deixado com as pernas e os braços coçando. Levantei da cama, coloquei o veneninho na tomada, aproveitei para fazer um xixi e voltei para o quarto para dormir tranquila. O veneno não funcionou e o safado do pernilongo continuou a me azucrinar. Eu então levantei, acendi a luz do quarto e comecei a caçada para matar o tal insetinho. De repente me dei conta da cena patética: eu, de madrugada, saltando pelo meio do quarto e batendo palminhas para tentar matar aquele porcariazinha que não me deixava dormir.

Liguei o ventilador e dormi.

Há cerca de 10 anos, eu JAMAIS faria isso, teria perdido, se necessário fosse, a noite inteirinha na caçada pelo tal pernilongo, não descansaria enquanto não tivesse ele espatifado na minha mão suja do meu próprio sangue e do corpinho magricelo do pernilonguinho. Mas o tempo passa e a gente muda, né?! Hoje em dia acho que a minha noite de sono é demasiadamente preciosa para eu perder meu tempo com um insetinho tão insignificante que nem consegue vencer o ventinho do ventilador que meu irmão comprou por R$30 nas Casas Bahia há mais de uma década.

Eu já tive muitas faces... Pra começar, era a japonesa gorda, nerd, feia e antissocial. Depois passei por uma daquelas transformações ao maior estilo "patinho feio" e passei a uma fase totalmente patricinha, fresquinha, ainda nerd e antissocial, mas fiquei bonitinha e aprendi a valorizar meu corpo através de roupas que me fizeram pular de "gordinha feia" para "japa gostosa" (certo, um regiminho me ajudou nessa mudança!! risos...). Depois cansei de ser "gostosa", foi o princípio da fase metaleira. Mas chegou a faculdade e eu passei para a fase "bicho-grilo". Superada essa fase, vou só mencionar que passei por uma fase baladeira não muito certa das idéias e daí eu conheci o meu namorado, primeiro e único! Depois eu perdi meu irmão, que era meu melhor amigo, meu suporte, meu tudo e começou a minha fase maníaca-depressiva, totalmente malucona, psicótica, doida varrida, sem noção. Depois veio a fase velejadora, que não é exatamente uma fase, pois não tende a acabar, mas sim a se agregar às futuras fases. E recentemente a mais nova de todas é a fase ambientalista, eco-chata, corajosa e aventureira.

Todo mundo muda, espera-se que, para melhor. Hoje eu prefiro protetor solar do que quilos de maquilagem, porque sei que a beleza que o protetor solar proporciona, vai ser mais efetiva futuramente do que a beleza instantânea proporcionada por uma boa maquilagem. Acho que aprendi a ser menos imediatista, perdi aquela coisa dos adolescentes de querer que todas as coisas aconteçam AGORA por medo de perderem a oportunidade ou a fase da vida. Roupas e calçados, não tenho mais coleções inteiras, as que eu tenho hoje em dia são as confortáveis, afinal roupa bonita é aquela que me deixa confortável. Parei com os video-games, hoje o meu negócio é viver na vida real as aventuras dos meus heróis preferidos, então eu velejo, eu escalo, eu salto, eu corro, eu viajo pelo globo, eu dirijo, eu cozinho, eu tenho amigos de carne e osso, nada contra os virtuais, mas cá para nós, a vida é muito mais interessante sem a intermédio de uma telinha.

Enfrentei meus medos, tracei novos rumos, idealizei com mais maturidade e mais clareza os velhos planos do passado. Hoje eu prefiro camping do que hotel, pela proximidade com a natureza, pela delícia da simplicidade, pela diversão e por ser mais barato. Prefiro uma boa noite de sono a uma baladona ou ao desafio de acabar com a vida do insetinho chato. Prefiro um bom livro do que a televisão. Hoje eu prefiro pisar na lama da Represa Guarapiranga e ficar com o pé cheinho de sangue sugas para conseguir chegar ao meu barco, do que ficar sentadinha na cama jogando Zelda e fazendo o Link velejar entre as ilhas do jogo. Eu prefiro ir ao supermercado, comprar os ingredientes e fazer um jantarzinho todo especial, na companhia do meu amor, do que ir a um restaurante da moda. E acho mais gostoso o café na prensa francesa, que dá um trabalhão pra fazer, mas é muito mais café. Hoje eu não bebo mais para ficar bêbada, aprendi a degustar boas bebidas. E prefiro comer queijos holandeses e franceses com uma boa garrafa de vinho e a companhia do meu namorado, do que as cervejadas com um monte de gente que eu nem conheço direito. Voltei a ser uma idealista, mas agora com ideias mais amadurecidas sobre o que eu efetivamente posso fazer para colaborar com o mundo. 

Mudei, porque tudo na vida muda, a própria natureza tem ciclos, e a nossa vida é feita de períodos, fases a serem vividas e superadas. O passado deve ser uma feliz lembrança e um aprendizado; o presente, como o próprio nome diz, é um presente, uma dádiva a ser aproveitada intensamente e ser a base para as ações do futuro; e o futuro não precisa ser incerto, é só uma questão de planejamento e de perseguir os sonhos. Mudar é amadurecer, aprender com os erros, reconhecer suas fraquezas e suas derrotas, é ser capaz de analisar criticamente a si mesmo e aos outros de forma a se tornar melhor a cada dia.

Quem critica os velhos amigos, os vizinhos, os parentes, os conhecidos ou quem quer que seja por essas pessoas terem mudado, é porque não tem a capacidade de amadurecer e notar que a vida passa sem pedir licença, silenciosamete, impiedosamente e initerruptamente, e quem não quer ser deixado para trás, deve se adaptar aos novos rumos e novos tempos, deve se tornar uma pessoa melhor, amadurecida, mais responsável, menos mimada, mais disposta, mais flexível, ou seja, quem está vivo precisa mudar, pois os acomodados são como mortos-vivos, atrapalhando o caminho e buscando sugar a energia vital daqueles que batalham para serem felizes.

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