Sentada a bombordo do Saltimbanco, o veleiro que meu namorido e eu compramos, sinto o vento tocando meu rosto junto com a água que espirra loucamente. Meus óculos de sol, apenas para não entrar água nos olhos, porque não há sol. O barulho do vento passando pelas velas e da água indo de encontro ao casco, são praticamente os únicos sons do ambiente. Logo atrás de mim, na popa da embarcação, uma mão no leme e a outra na escota da vela mestra, está o homem que eu amo. Nós seguimos a tarde toda assim, em silêncio, apenas curtindo a presença um do outro, naquele ambiente que é o nosso preferido.
Nos dias em que velejamos é quase sempre assim. A gente sente a felicidade vindo em rajadas, fortes e assustadoras. Nós damos valor a tudo aquilo que carregamos conosco no Saltimbanco: a companhia um do outro, nossos sonhos, nossa cumplicidade silenciosa, o vento que corta de um lado a outro, a água que vem de todos os lados e se espalha por todo o convés, nosso relacionamento que fica mais forte a cada novo bordo e a cada novo jibe...
Desde que começamos a velejar, há pouco mais do que um ano, muita coisa mudou. Nós descobrimos a vida que queremos para nós para sempre, mas não é só isso. Passamos a pensar que não adianta comprar um monte de coisas, adquirir um monte de bens, se eles não couberem dentro do nosso barco onde planejamos morar. Aprendemos também que somos tão insignificantes na natureza, dependemos dos ventos e das águas e precisamos estar em sintonia com esses elementos e com os animais que vivem nesse ambiente.
A gente depende da intensidade do vento, das marés, das chuvas, dos animais, enfim, nós temos que nos adaptar ao que todo um conjunto de elementos impor. Assim perdemos aquela arrogância típica do ser humano de achar que é o dono do mundo e que tudo e todos devem se curvar perante sua magnitude. Não! Nós somos só uma partezinha e precisamos nos adequar, pois as coisas não acontecem sempre do jeito que nós queremos que aconteçam.
A arte de ser flexível, o dom da paciência, a humildade, tudo isso nós ainda estamos aprendendo e creio que sempre teremos um pouco mais a aprender a cada dia das nossas vidas.
Recentemente eu entendi que TODO MUNDO erra, e quem não erra é porque tentou pouco. Então cabe a escolha: uma vida sem erros e sem aventuras ou uma vida repleta de grandes feitos e equivalentes erros? Não sei, posso estar errada, mas me parece tão mais feliz aquele que erra (e aprende com os erros!).
Dia desses li numa revista: "No mar, muito acerta quem desconfia que às vezes erra.". Achei essa frase fantástica e termino esse post, acrescentado a ela, mais duas citações que eu acho bárbaras:
"Eu aprendi com a primavera a me deixar cortar e voltar sempre inteira." (Cecília Meireles)
"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o seu próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver. (...) o mundo na TV é lindo, mas serve para pouca coisa. É preciso questionar o que se aprendeu. É preciso ir tocá-lo." (Amyr Klink)
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