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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

In the land of the blind, the one eyed man is king

Há duas semanas, minha mãe se submeteu a uma cirurgia na boca. Nada muito complicado, apenas um enxerto para posterior implante dentário. Mas durante aproximadamente 30 dias, ela não pode comer nada sólido, tudo o que ela vai ingerir deve ser passado no liquidificador e ela deve tomar de canudinho.

Bem, passaram-se duas semanas e ela está aguentando bravamente. Mas ela vive olhando para a gente comendo e diz "ai, como é bom poder mastigar, né?" e "sua comida parece uma delícia!". Eu fico com pena da minha mãe, mas é ela mesma quem sempre diz que ela é feliz, pois mesmo que a comida dela seja líquida, ao menos ela tem o que comer, afinal o mundo está cheio de gente que nem isso tem. O que eles não dariam pela sopinha batida no liquidificador da minha mãe?

Ontem, enquanto nós estávamos jantando, minha mãe disse "ai, filha, que delícia você poder comer a comida mastigando, né?! É tão bom mastigar!". E eu não pude evitar a piadinha com fundo de verdade: "pois é, né, mãe? Mas tem muita gente por aí que prefere tudo mastigado...". Todo mundo riu, mas secretamente todo mundo conseguiu pensar em algum exemplo de pessoa que se encaixa nesse grupo.

É tão bom quando a gente luta para conseguir atingir nossos objetivos e, de fato, conseguimos alcançá-los, né?! O sabor de uma conquista normalmente é equivalente ao esforço demandado. Quando conseguimos as coisas de mão beijada, tudo mastigado, sem esforço, não damos valor.

Eu demorei anos para conseguir perder o medo de dirigir, porque como diz o próprio instrutor especializado em fazer gente habilitada perder o medo de dirigir, o primeiro passo para perder o medo é conseguir ligar para ele e marcar a aula. Realmente, eu demorei anos para tomar coragem de ligar para ele e, no dia em que consegui combinar a aula, fiquei torcendo para eu ou ele termos uma dor de barriga e a aula ser cancelada. Mas passada a primeira aula, a primeira superação, tudo começou a dar certo. Hoje eu consigo dirigir a qualquer lugar, tendo consciência de que sou péssima motorista, mas já não tenho medo, não me apavoro com buzinas e com gente xingando a minha mãe, vou com calma, sem pressa, quando o carro morre eu ligo de novo, quando engasga eu dou risada, e assim vou seguindo. Tenho em mente que a melhora vem com o tempo e que só de ter superado o medo, já foi a maior de todas as conquistas. Hoje dou muito mais valor ao simples ato de dirigir do que certamente teria dado se tivesse sido fácil desde o começo, se eu nunca tivesse tido de enfrentar o pavor de dirigir alguma vez na minha vida.

Tenho certeza de que a minha mãe dá muito mais valor ao simples ato de mastigar, do que a maioria das pessoas, que mastigam a comida com pressa e sem nem pensar no que estão fazendo, engolem a comida ainda quase inteira e saem correndo para fazer qualquer outra coisa. Tem gente que gosta de tudo mastigado na vida, mas que vida mais sem graça deve ser essa, na qual não se precisa lutar por nada!

Sou diabética desde os 15 anos de idade. E antes disso eu comia arroz, massas, batata, frituras, doces, hamburguer, hot dog, pizza... Comia como uma ogra! Hoje, eu preciso selecionar o que vou comer e, quando me permito comer alguma dessas coisas "proibidas", eu degusto como se fosse a melhor e mais rara comida do mundo, mastigo, sinto o sabor e vou comendo bem devagar, curtindo o sabor. Quando eu era saudável não dava valor a essas comidas mesmo gostando de come-las, hoje, para mim elas valem mais do que ouro.

É triste, mas quase sempre a gente só dá o devido valor às coisas quando as perdemos. Quantas histórias de gente que só dá valor ao companheiro(a) quando perde. Quantas histórias de gente que só dá valor à visão quando a perde, ou à fala, ou à audição, ou aos bens materiais, familiares, amigos... Mas que coisa mais besta, né?! Por que esperar perder para dar valor?

Tão melhor seria se as pessoas passassem a valorizar a felicidade que possuem nesse exato momento em vez de pensarem nos problemas que estão vindo. Que bom seria se as pessoas ficassem felizes com o que acontece de bom em suas vida, ao invés de ignorar essas dádivas e ficarem só martelando nos problemas. 

Problemas todos temos, mas cabe a cada um escolher se será um refém deles ou se superará cada um deles sem deixar de valorizar tudo de bom que acontece concomitantemente. Mas afina, parece que é mais fácil passar o dia reclamando das contas a pagar e das políticas dos governantes corruptos, do que sentir-se grato por ter saúde, por ter uma família, por ter um teto etc.

Eu sempre digo pra minha mãe, que às vezes a gente reclama que não tem um calçado novo, mas tem gente que não tem calçado nenhum e, pior, tem gente que nem pé tem para usar um calçado. Tem gente que reclama dos gastos, mas tem gente que não pode nem gastar. Tem gente que reclama do trabalho, mas tem gente que nem trabalho tem!

Quando somos egoístas demais e pensamos apenas nos nossos problemas, parece que eles são os piores possíveis, mas quem consegue olhar em volta, percebe que nossos "problemas" seriam a solução para muitas outras pessoas. 

No filme SETE ANOS NO TIBET um monge diz a seguinte frase: "Se um problema tem solução, então você não precisa se preocupar com ele. Se um problema não tem solução, então preocupar-se não vai ajudar a resolve-lo."

Se as pessoas não se preocupassem tanto com seus supostos problemas, talvez conseguissem dar mais valor a felicidade que possuem agora e não na felicidade que esperam conquistar no futuro quando não existirem mais problemas. Para o pessimista sempre haverá problemas, então a desejada felicidade futura, sempre estará no futuro, não vai chegar nunca! E, no AGORA, há tanto para se comemorar, para dar valor, há tanta felicidade...

Dizem que em terra de cego, quem tem um olho é rei. Eu diria que nesse mundo cheio de gente que se afoga nos próprios problemas, quem nada para a superfície e consegue ver a felicidade por cima do mar de problemas é rei. 

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Sailing Happiness

Sentada a bombordo do Saltimbanco, o veleiro que meu namorido e eu compramos, sinto o vento tocando meu rosto junto com a água que espirra loucamente. Meus óculos de sol, apenas para não entrar água nos olhos, porque não há sol. O barulho do vento passando pelas velas e da água indo de encontro ao casco, são praticamente os únicos sons do ambiente. Logo atrás de mim, na popa da embarcação, uma mão no leme e a outra na escota da vela mestra, está o homem que eu amo. Nós seguimos a tarde toda assim, em silêncio, apenas curtindo a presença um do outro, naquele ambiente que é o nosso preferido.

Nos dias em que velejamos é quase sempre assim. A gente sente a felicidade vindo em rajadas, fortes e assustadoras. Nós damos valor a tudo aquilo que carregamos conosco no Saltimbanco: a companhia um do outro, nossos sonhos, nossa cumplicidade silenciosa, o vento que corta de um lado a outro, a água que vem de todos os lados e se espalha por todo o convés, nosso relacionamento que fica mais forte a cada novo bordo e a cada novo jibe...

Desde que começamos a velejar, há pouco mais do que um ano, muita coisa mudou. Nós descobrimos a vida que queremos para nós para sempre, mas não é só isso. Passamos a pensar que não adianta comprar um monte de coisas, adquirir um monte de bens, se eles não couberem dentro do nosso barco onde planejamos morar. Aprendemos também que somos tão insignificantes na natureza, dependemos dos ventos e das águas e precisamos estar em sintonia com esses elementos e com os animais que vivem nesse ambiente.

A gente depende da intensidade do vento, das marés, das chuvas, dos animais, enfim, nós temos que nos adaptar ao que todo um conjunto de elementos impor. Assim perdemos aquela arrogância típica do ser humano de achar que é o dono do mundo e que tudo e todos devem se curvar perante sua magnitude. Não! Nós somos só uma partezinha e precisamos nos adequar, pois as coisas não acontecem sempre do jeito que nós queremos que aconteçam.

A arte de ser flexível, o dom da paciência, a humildade, tudo isso nós ainda estamos aprendendo e creio que sempre teremos um pouco mais a aprender a cada dia das nossas vidas.

Recentemente eu entendi que TODO MUNDO erra, e quem não erra é porque tentou pouco. Então cabe a escolha: uma vida sem erros e sem aventuras ou uma vida repleta de grandes feitos e equivalentes erros? Não sei, posso estar errada, mas me parece tão mais feliz aquele que erra (e aprende com os erros!).

Dia desses li numa revista: "No mar, muito acerta quem desconfia que às vezes erra.". Achei essa frase fantástica e termino esse post, acrescentado a ela, mais duas citações que eu acho bárbaras:

"Eu aprendi com a primavera a me deixar cortar e voltar sempre inteira." (Cecília Meireles)

"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o seu próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver. (...) o mundo na TV é lindo, mas serve para pouca coisa. É preciso questionar o que se aprendeu. É preciso ir tocá-lo." (Amyr Klink)